Me lembro de um tempo, há muito tempo, em que os minutos eram dias, os dias eram anos. Todo lugar era enorme, eu cabia onde eu quisesse.

Quando criança, era com os meus pais que me sentia segura e com meus avós que me sentia livre:

Livre para comer o que quisesse (e minha vó era a melhor cozinheira do mundo)

Livre para acordar a hora que quisesse (pois morando em outra cidade era lá que eu passava férias)

Livre para correr o quanto eu quisesse (e também livre do apartamento de 65 metros quadrados de Brasília)

Livre para bagunçar onde quisesse (porque qual é a vó que impõe limites aos netos que só vê duas vezes ao ano?)

A minha vó era a dona da família, aquela bem italiana, que cozinha, costura, manda rezar, manda vir, manda buscar e reúne a família toda nos segundos de um berro.

Meu vô era forte, ex-militar, filho de bandeirantes, sabia construir e consertar qualquer coisa.

Aos 81 anos, o Alzheimer dela, e o câncer de pulmão dele me fizeram acordar de um transe da infância, que normalmente se arrasta à adolescência e perdura por alguns anos na vida adulta. Vi uma casa, que apesar de ainda ser a mesma da infância, é totalmente diferente do que eu me lembro.  É uma casa adoecida, que tá velhinha, sabe? Ela tem o mesmo desgaste das fotos amareladas da minha infância.

 Hoje, o meu vô sopra palavras por falta de ar, por falta de fôlego, por falta de força.

A minha vó está sempre perdida , perdida num labirinto mental, perdida na sua própria casa, entre as coisas que ela mais gosta na vida, mas não se lembra. 

Não existem mais representações, regras, convenções, não há “direita”, “esquerda”, nem “para cima “ou “para baixo”.

Olho nos olhos dele e vejo um desespero pela juventude, uma vontade de querer me tranquilizar e de se fazer de forte, mas é tanta dor… Ele desvia o olhar.

Olho os olhos dela, parecem vidrados, não focam em mim, como se não me reconhecessem. São olhos perdidos… Dentro da própria casa, entre os filhos e os netos.

 Eles vão nos deixando aos poucos, sempre quando vou visitá-los sinto que mais um pouco sumiu.

 Vou me despedindo e colocando um monte saudade no buraco que ficou.
É uma saudade diferente, cheia de amor, conformada e inconformada ao mesmo tempo. A despedida vai ficando cada vez mais suave, como um fade antes do fim. 

Bom, Bianca Soares é a caçula de três filhos, nasceu, cresceu e mora até hoje em Barueri, na grande São Paulo. Ela tem trinta e sete anos e trabalha desde os dezessete como professora. Dá aulas de inglês na rede pública de ensino de Barueri e em outras três escolas particulares, para alunos de quinta série, sexto ano do ensino fundamental, até o terceiro ano do ensino médio. Ela mora com os pais, tem dois carros próprios e atualmente está pagando o seu apartamento em Alphaville.

A Bianca parece ter uma história bem comum, né? Mas até oito meses atrás, a Bianca era, legalmente, “Edson”, Edson Soares. Pois é, ela é transexual, porém desde o dia 04 de janeiro desse ano, ela conseguiu na justiça o direito de alterar todos os seus documentos para o seu então verdadeiro nome: Bianca.

Ela é uma transexual, feminina, hétero: uma mulher, “trans” que só se relaciona com homens heterossexuais (e ressalta muito isso). Portanto, para quem tem dúvidas: não, ela não é “gay”, nem “traveco”, nem é uma “drag”. Segundo ela “… as pessoas confundem muito isso aí.” O transexual, não é um homem que se veste de mulher, é um homem decidiu passar por transformações físicas, cirúrgicas e hormonais para ver o seu corpo mais parecido com a maneira que ela se sente: como uma mulher. Se a Bianca é operada? Não, ela ainda não fez a cirurgia de mudança de sexo, mas disse que ainda vai fazer, mas no momento ela está desfrutando do seu direito de usar o nome “Bianca” e que quer curtir cada etapa dessa “transformação” aos poucos. Além disso, ela quer esperar a ciência e a tecnologia evoluírem um pouco mais para se submeter à esse tipo de procedimento.

Mas até aí a Bianca, professora transexual ou não, leva uma vida normal, acorda cedo todo dia, vai para a escola, dá aulas, convive com a família e tudo que eu ou você fazemos todo dia.Acontece, que além disso, ela também é uma diva da vanguarda paulistana da noite. E é aqui que quem era Edson e agora é Bianca Soares, se transforma em “Bianca Exótica”. A Bianca Exótica é uma figura famosa na noite e segundo ela: “Foi na noite que eu me fiz mulher.”. Em festas e baladas São Paulo afora, ela já foi performer, hostess, DJ, já fez de tudo um pouco, conhece muita gente, estilistas, donos de festas, artistas, famosos, grandes DJs, fotógrafos e jornalistas conhecidos, por isso, ela sabe e conhece bem o que é bom. Em um sábado, a Bianca contou um pouco da história dela e deu algumas dicas culturais de São Paulo. Dá uma olhada:

Volta aos palcos paulistanos Bob Wilson, no ano passado ele esteve por aqui com outras quatro peças: “A última gravação de Krapp”, “A ópera dos três vinténs”, “Lulu” e “Macbeth”. Agora, pela primeira vez  apresentando uma peça com elenco brasileiro, está em cartaz “A Dama do Mar”, um texto adaptado por Susan Sontag, da obra original de Henrik Ibsen. Bob é responsável pela direção, iluminação e cenografia.

A peça, que estreou no dia vinte e cinco de maio e fica até o dia sete de julho no Sesc Pinheiros, é uma boa oportunidade de conferir a estética contemporânea marcante e singular do diretor.

Bom, e é exatamente dessa estética que vamos falar aqui.

Com iluminação, cores e formas muito precisas e características, Bob Wilson cria um universo capaz de dilatar o tempo para se sentir a história. Os cenários limpos e minimalistas, são construídos com sombras, silhuetas e luzes coloridas. A linguagem desenvolvida, de diversas maneiras, no espetáculo proporcionam um ambiente que distancia o espectador do mundo real e permite que o público relacione diversos significados aquele contexto, de acordo com seu repertório e subjetividade.

Além do apelo visual, do cenário e das luzes, da interpretação, com gestos fortes, marcantes e bem desenhados,  os sons também constroem a sensação de uma nova dimensão para a história, uma dimensão destinada aos espectadores,  onde o tempo e os sentimentos são diferentes para cada pessoa na plateia. A forma se torna elemento principal para se sentir, e perceber o conteúdo. É como se cada cena (que é de fato desenhada pelo diretor na montagem da peça) fosse um quadro, porém com formas em movimento, os atores, que criam constantemente novas composições

A “Dama do Mar” está em cartaz no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros.

Rua Paes Leme, 195 – Pinheiros – São Paulo – SP – Tel.:(11) 3095 9400

Sexta, 21h; sábado, 20h; domingo, 18h.

Ingresso: R$ 40,00

Bilheteria: 13h/22h (terça a sábado); 10h/19h (domingo). Ingressos em toda a rede Sesc.

Bom, a Bianca Soares é de Barueri, nasceu, cresceu e mora lá até hoje.

Fez Letras, é professora de inglês há vinte anos e dá aulas para alunos de quinta série (sexto ano  do ensino fundamental) até o terceiro ano do ensino médio, na rede estadual e em escolas particulares da grande São Paulo. Mora com os pais, tem dois carros e está pagando um apartamento em Alphaville.

Para quem não sabe quem ela é, nem nunca a viu, parece uma história bem comum, mas a Bianca era “Edson” até oito meses atrás. Edson Soares.

No dia 04 de janeiro de 2013, ela conseguiu na justiça que todos os seus documentos fossem alterados para o seu então verdadeiro nome: Bianca.

Sim, ela é transexual. Não, ela não é um “traveco”, nem “Drag”, nem gay. Segundo ela: “… as pessoas confundem muito isso aí.”. E não, também não, ela ainda não fez a operação de mudança de sexo, mas, um dia, ainda pretende viajar para a Tailândia para fazer a cirurgia.

Além de Bianca Soares, a professora estadual e mulher transexual, a Bianca também é conhecida como Bianca Exótica, diva da noite de São Paulo. É Hostess, DJ, Performer e adora e frequenta a noite de São Paulo desde os anos 90. Conhece tudo, mas só gosta do que é bom.

Em um sábado, a Bianca contou um pouco da história dela e deu algumas dicas culturais de São Paulo. Dá uma olhada: